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[Nov. 27th, 2006|03:28 pm] |
À Velha do Saco chamam velha, mas ninguém sabe o que leva no saco. Sabem que cheira mal, a velha ( e o saco).
Todos os dias apanha o autocarro à mesma hora.
Todos os dias, à mesma hora, os passageiros se queixamdo mau cheiro!
O Saco, que não é um saco, é antes um carrinho - de - compras de mão feito em tecido plastificado, de xadrez azul e encarnado. O que leva, ninguém sabe.
Cheiram mal. Ela, porque perdeu a paciência para se lavar. Tanto esforço dispendido e que lhe é imprescindível a outras funções, essas vitais! Quando era nova é que tinha que se preocupar com isso, mas então era uma jovem de bom ar e em idade casadoira. Agora, não tem pachorra! Arranjar-se, aprumar-se, são hoje tarefas árduas e já não vale a pena. Afinal, sai tão pouco, e o caminho é sempre o mesmo. Enquanto suportar o próprio cheiro, os outros hão-de conseguir aguentar.
Hoje em dia tem outras preocupações, coisas mais importantes com que ocupar o tempo. Debruça-se sobre questões essenciais: para onde irá, haverá o quê depois disto, talvez não exista nada! Sabe que há pessoas que voltaram para contar (bem, talvez não tenham chegado realmente a ir!), mas não passou por isso pelo que não imagina o que a espera. Fina-se, e pronto, se calhar só isso. Talvez não tenha feito o que devia, é o mais certo! Faz parte, está bem, mas não deixa de chorar sobre o leite derramado. Interroga-se se haverá castigo, mas para existir o paraíso tem certamente que haver um inferno.
Revive mentalmente o que ficou para trás, prepara-se para o que aí vem, para a hora que está a chegar, mas não é fácil a tentativa de redenção. É por isso que cheira mal, não só não tem vontade como também lhe foge o tempo.
Já o cheiro do maldito saco faria vomitar qualquer um.
O peixe, mesmo podre, cheira a peixe.
As laranjas ganham um odor a mofo mais próximo do do Saco. Talvez se fossem muitas, mas a pobre velha
não podia comprar tantas. Além do mais, não pode com o próprio peso, quanto mais com o das laranjas! Será então roupa o que traz no Saco. Roupa antiga que guardava no baú ou na arca porque lhe deixou de servir, isto porque a idade não acarreta só o peso dos anos, vem com o outro peso também.
Quando a pensão deixa de chegar e os filhos, se os há, moram longe, uma velha vê-se despojada de tecto, arcas e baú e não sabe o que fazer à roupa desfazer-se delas, nunca! Sim, porque é nessas coisas que se guardam as memórias. Ainda se lembra da primeira vez que usou o vestido vermelho, e do chapéu que levou ao casamento, do dia ventoso em que estreou o casaco. Porque elas retêm os momentos, decidiu carregá-las consigo. Ou talvez se trate de roupa velha que apanha onde calha, no lixo, ou que lhe dão. Aos mendigos não se lhes deve dar dinheiro ou vão gastá-lo no vício, nos copos e afins, atolados na miséria. Assim como assim, a roupa que já não se usa não serve para nada. A vida está cara para desperdiçar comida, e a velha está tão suja ( e cheira tão mal) que o melhor será arranjar-lhe uma coisinha lavada mesmo, sempre se contribui para o bem estar e saúde públicos. E ela vai enfiando tudo no saco, pode ser que o venda numa feira qualquer. Há quem compre estas coisas, são artigos rentáveis, peças vintage. A diferença entre luxo e lixo é só uma letra.
Diz-se que até uma pedra tem vida, na medida em que todo o ser, mesmo inanimado, é matéria e, sendo matéria, contém energia, carrega um peso adquirido próprio.
Não é controverso afirmar que os objectos retém recordações, nem que certas lembranças cheiram mal.
É esse o fardo que carrega o Saco, o bafo pestilento da idade de uma velha, que nos é insuportável. A Morte não deve cheirar nada nada bem! |
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